14 de julho de 2006

O Menino de Sua Mãe

No plaino abandonado
que a morna brisa aquece,
de balas trespassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
alvo, louro, exangue,
fita com olhar langue
e cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".
Caiu-lhe da algibeira
a cigarreira breve
Dera-lhe a mãe. Está inteira
e boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
ponta a roçar o solo,
a brancura embainhada
de um lenço... Deu-lho a criada
velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino de sua mãe.

Fernando Pessoa
Poemas Escolhidos

1 comentário:

Tits and Acid disse...

oh, tu sabes que adoro Pessoa.
:)