A Floribella explicada aos adultos: eis uma empreitada difícil. E a dificuldade está menos na explicação do que na própria matéria explicada: na verdade, nã há nada explicar. A dificuldade é essa. A Floribella é uma espécie de Gata Borralheira, mas para crianças mais pequenas e mais crédulas. Conheço dois ou três recém-nascidos que já não se deixam convencer por aquela história.
Por falar na história, conta-se brevemente: por causa da morte da mãe, do desaparecimento do pai, da pobreza e de um furúnculo no pé, Floribella é desgraçadinha de várias maneiras. A vida foi má para ela, e quem vê a série começa, de facto, a simpatizar com a vida. A Floribella merece, pá. É chata, ensossa, chata, enfadonha, chata e aborrecida. E um bocado chata também. Ver a série Floribella é uma experiência equivalente à de entrar numa divisão da casa onde se pôs insecticida: mais cedo ou mais tarde, sabemos que vamos dar de caras com uma mosca-morta.
Enquanto os miúdos dos Morangos com Açúcar estão a praticar o sexo pelo sexo e a experimentar diversos tipos de droga, como qualquer adolescente saudável, a Floribella anda entretida a acreditar em fadas e a entregar-se a melancoliazinhas várias. Floribella está apaixonada por um indivíduo de ascendência alemã que tem uma barba mesmo muito cerrada e pinta o cabelo. E isto é que pernicioso: mais cedo ou mais tarde, o público dos Morangos com Açúcar vai perceber que as drogas têm muito pouco interesse, e que o sexo pelo sexo, às vezes, acaba por ser ligeiramente menos compensador do que o outro. Mas o público de Floribella, convencido de que está a assistir a uma série que transmite mensagens positivas, pode continuar, pela vida fora, a acreditar que as fadas nos resolvem os problemas e que um homem pintar o cabelo é aceitável e bonito. Mais: é óbvio para todos que o alemão, embora tenha o mau gosto de amar apaixonadamente a Floribella, vai levar 300 ou 400 episódios a declarar-se à miúda. Sobre isto, quero dizer o seguinte: estamos no século XXI. Quando um senhor gosta de uma senhora e, passados cinco minutos, ainda não fez o mais pequenos esforço para se meter na cama com ela, nós, no ano da graça de 2006, já não chamamos a isto cavalheirismo. Chamamos homossexualidade.
Do ponto de vista ideológico, há que reconhecer que a Floribella é um triunfo. Ainda que tardia, trata-se de uma das mais felizes manifestações de salazarismo. Na senda de Amália – que, em Uma Casa Portuguesa cantava:
«A alegria da pobreza
Está nesta grande riqueza
De dar e ficar contente.
No conforto pobrezinho do meu lar,
Há fartura de carinho.
Basta pouco, poucochinho p’ra alegrar
Uma existência singela…»
ou da Milu - que, em O Costa do Castelo advertia:
«Tudo podem ter os nobres
Ou os ricos algum dia
Mas quase sempre o lar dos pobres
Tem mais alegria»
Floribella canta alegremente que:
«Pobres dos ricos, que tanto têm
P’ra que é que serve tanto dinheiro?
Não tenho nada
Mas tenho, tenho tudo
Sou rica em sonhos
E pobre, pobre em ouro.
Pobres dos ricos, que sem verdade
Vivem a vida sem liberdade.
Eu tenho sorte, pois sendo pobre
Sobra-me tempo e tenho sonhos.»
Ou seja, a Floribella gosta imenso de ser pobrezinha, e acha que os ricos não se divertem nada. São opiniões. Porém, sendo a trama tão rudimentar e os proveitos do merchandising tão grandes, deve haver engano na letra da música: a Floribella é pobre em sonhos e rica, rica em ouro.
in Visão nº696
2 comentários:
LOOOOOOOOOL
ele é um máximo.
eu nunca vi foribella:D:D:D:D:D:D
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