Está tão abafado! A minha respiração é lenta e sufocada, os meus músculos estão tensos e irreflexivos, as minhas pálpebras fecham cada vez menos vezes e a minha cabeça sente-se comprimida e horrivelmente dormente. Sou obrigada a abrir a janela. Faço-o a custo. Os meus braços estão fracos, o ferrolho tem, desde que me lembro, tendência a encravar e as madeiras são já velhas, carunchosas e empenadas. Por fim a pequena aldraba cede, o trinco descerra, e as portadas, como que descoladas após longos anos, abrem-se paralelamente. A fresca brisa nocturna atravessa a divisão acompanhada por dezenas de pequenos insectos em busca de calor. O meu corpo liberta-se do sufoco. O fôlego normaliza, os órgãos começam a tomar novamente força e vitalidade, os olhos reagem ao fraco fulgor da lua cheia, e o cérebro distende e retoma o pensamento livre.
Volto para a pequena mesa de trabalho com mais de trezentos anos. Mesmo junto à janela é espantoso como sobreviveu aos constantes ataques do bicho e continua em pé. Foi há pouco tempo envernizada, mesmo não ficando em pó o tempo não é clemente, estava seca, baça e riscada. Como aquelas leves pinceladas a transformaram. Sente-se o cheiro que exala agora e por mais alguns meses.
Sentada na cadeira floreada e almofadada banho a pena no tinteiro e retomo a escrita pendente. Continuo a usar pena, gosto de coisas “velhas” e não gosto de lhes chamar antigas. O papel acastanhado provoca atrito no bico e como eu sublimo esse som, esse pequeno ruído. Amo-o tanto como o da agulha da grafonola a riscar o vinil que neste momento liberta um há muito fechado Benny Goodman.
Não sei o que escrevo, por vezes isso acontece-me! A minha mão floreia simplesmente o papel, um gasto de tinta desnecessário à natureza mas tão preciso a mim. A cabeça atormentada tem tendência a vaguear sem destino, outra coisa que abomino. Nunca se consegue nada bem feito nesses momentos e eu sou perfeccionista, se algo está mal é recomeçar (e como isso custa!). Suponho que o meu perfeccionismo provoca o meu desespero que irá interferir com o primeiro. Sim, é confuso! Eu sei, melhor que qualquer um.
1 comentário:
E descansares de tudo?
Descansares de ti própria era um começo.
Enviar um comentário