Entrou e dirigiu-se para o canto mais escuro da taberna. Sentou-se na cadeira de tampo almofadado a tecido bordeaux e aproximou-se da mesa redonda, retirou o aviso de reservado, afastou a jarra de rosas pretas e pegou no largo copo de vinho tinto. Recostou-se à espera e observou o local.
A sala, pavimentada com madeira velha e baça, era constituída por mais cinco mesas, todas elas mais iluminadas do que a sua, dispostas entre os dois cantos opostos e o centro. Em cada uma encontravam-se duas ou três pessoas sentadas em cadeiras iguais à sua. Conversavam baixinho enquanto comiam demoradamente pequenas sardinhas. No outro canto elevava-se, dois degraus acima do chão, um pequeno estrado no qual se encontravam um contrabaixo deitado e uma guitarra eléctrica encostada a um banco tripé com quarenta centímetros de altura. Ao centro via-se um rádio antigo envolto em rosas brancas, vermelhas e pretas. No cimo deste um chapéu negro e redondo de aba completa.
Metade das paredes era forrada a azulejos brancos encimados por uma tira mais fina de floreados azuis feitos à mão. A outra metade fora pintada de branco e, a cada metro, tinha sido colocado um pequeno candeeiro com duas lâmpadas que iluminavam fracamente os presentes. Dos barrotes do tecto desciam duas ventoinhas de asas largas que combatiam ingloriamente o bafo quente das noites de Agosto e um projector vermelho apontado ao palco.
Não havia janelas, apenas duas portas. Uma pesada em madeira, centrada na parede oposta, dava para a estreita calçada do exterior. Outra, ao estilo do velho oeste, abria de par em par numa das paredes adjacentes para dar aceso à cozinha.
O funcionário, conhecido de longa data, aproximou-se:
- Três petingas e duas folhas de alface. Bom Apetite!
- Obrigado Afonso.
Virou-se e voltou à cozinha, abrindo paralelamente a porta e deixando entrar por segundos uma forte claridade. Os olhos dela retraíram-se levemente. Colocou o copo na mesa e iniciou a ligeira refeição.
Não haviam passado mais de cinco minutos quando dois homens altos entraram e se dirigiram ao estrado. Um trajava um simples fato cinzento riscado com uma flor amarela ao peito, camisa branca, gravata vermelha, óculos escuros grandes e sapatos de pele pretos e brancos. O outro, uma camisa preta aberta no peito com mangas largas enfeitadas nos pulsos e umas calças, também pretas, justas até ao joelho, local onde começavam a alargar em sino apresentando os mesmos desenhos das mangas. Usava sapatos brancos e a cabeça cobria-se de revoltos caracóis.
A mulher parou a refeição e observou-os.
O primeiro ergueu o contra-baixo e esticou suavemente uma corda, confirmou que estava afinado e preparou-se para tocar. O segundo pegou na guitarra, passou a mão pelas cordas sentindo-as vibrar, colocou o chapéu ocultando os deslumbrantes caracóis e libertou as primeiras notas.
Ela via-os no palco e fascinava-se com a forma como sentiam a música, como cada corda se retesava formando, no conjunto, um ritmo hipnotizador. Como o simples bater do sapato branco no estrado encaixava magicamente na melodia. Pegou novamente no copo de vinho, bebeu um pouco e fechou os olhos. Deixou-se enfeitiçar pelos sons e aromas da divisão e perdeu-se no sedutor pulsar da música.
13 de junho de 2008
Uma noite...
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1 comentário:
Nem sei porque precisas da minha opinião. Sabes que amo o que escreves. Dá mais vontade de ler isto que qualquer livro que me emprestes (à excepção do Marquez, ainda não estás assim tão boa :P ), empresta-me antes o teu blog :)
Dead Combo, dão-nos sempre as melhores inspirações para divagar... uns divagam em pensamentos, voam dentro deles próprios e descansam nesse relaxamento... outros traduzem-nos em palavras.
É óbvio quem é quem aqui, quem se fica pelo voar de dentro, eu, ou quem voa e mostra as belas asas que possui: tu.
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