Sabe sempre para onde vai, o velho. Levanta-se todos os dias à mesma hora. Faz a sua higiene pessoal. Veste o casaco de camurça gasta e sai de casa. Percorre as ruas de todos os dias. As mesmas esquinas, os mesmos becos. Entra no café eternamente escuro e pede o mesmo que no dia anterior, e nos dias anteriores a esse dos últimos cinquenta anos. Senta-se ao balcão no já habitual banco de pé alto e espera, com a paciência dos anos, que a empregada, a mesma de sempre, lhe traga o café. Não põe açucar. Já pôs, em tempos, mas a vida tornar-se amarga com o passar dos anos e os diabetes já não permitem abusos. Folheia o jornal. Esse muda. Todos os dias as notícias são novas, no entanto iguais às de sempre. Todos os dias uma casa assaltada ou um acidente de automóvel. Todos os dias um político corrupto, uma guerra desencadeada, um qualquer problema económico. Consegue mais rapidamente adivinhar as notícias do dia, que o homem do tempo se vai chover ou não. Deixou de se preocupar com o mundo. Quando? Não se lembra. Num qualquer dia em que se fartou de ler sempre o mesmo. Hoje chega-lhe a experiência de vida para sobreviver. Marca compasso com o relógio de corda que traz no bolso e só continua porque este ainda não parou. Um dia deixa de lhe dar corda e fica imóvel como o ponteiro.
Levanta-se. A empregada já sabe que é para por na conta que paga, religiosamente, todos os últimos domingos de cada mês antes de ir para a missa. Sai. Em tempos teria ido directamente para a sua ourivesaria na Rua da Azeiteiras. Mas a visão começou a falhar-lhe e hoje está reformado. Faz quinze anos que fechou a loja e nunca soube muito bem o que fazer com as horas vagas.
Começou por passear por os jardins da cidade mas depressa se fartou. Hoje sabe de cor todos os cantos do Botânico, da Sereia, do Manuel de Braga e de tantos outros. Sabe onde se escondem os casais de namorados que procuram o sossego das árvores para trocarem beijos, onde brincam as crianças que espetam paus nas pequenas formigas, sabe o percurso dos homens que cortam a relva e conhece os velhos todos, que como ele percorrem os espaços com andar vagaroso. Depois começou a visitar os museus, mas a arte perdeu o significado para ele por falta de indentificação. Resolveu, então, visitar a cidade, conhecer melhor as ruas. Andou quilómetros por dia de caminhos diferentes. Viu crescer edifícios, casas, bairros inteiros. Viu pequenos centros comerciais tornarem-se grandes e grandes desaparecerem. Foi da Baixa à Cruz de Celas, de Stº António dos Olivais à Solum, do Norton de Matos aos Combatentes, de Stª Teresa à Universidade. Desceu a Almedina. Fez a Beira Rio. Atravessou para Stª Clara. Visitou toda a periferia num raio de quinze quilómetros. Hoje conhece a Geografia da cidade melhor do que os mapas a descrevem.
Todavia a vida mantém-se vazia. Todas as noites volta à casa silenciosa. A mulher morreu quando tinha cinquenta, ele cinquenta e seis. Nunca colmatou a perda. Tem dois filhos. Fez questão de que fossem para a Universidade e hoje trabalham longe. Vêm a Coimbra pelo Natal para que o pai não se sinta sozinho. Trazem os filhos. Por essas alturas é um avô babado. Prepara o jantar, dose individual. Liga o rádio antigo e senta-se na mesa grande a comer. Parece-lhe infinita, com as cadeiras laterais vazias e a jarra com rosas secas no centro. Come vagarosamente enquanto rumina pensamentos e escuta, desinteressadamente, a moderna programação das rádios. Não é que goste destas novas músicas, mas é uma companhia de que não abdica.
Começou por passear por os jardins da cidade mas depressa se fartou. Hoje sabe de cor todos os cantos do Botânico, da Sereia, do Manuel de Braga e de tantos outros. Sabe onde se escondem os casais de namorados que procuram o sossego das árvores para trocarem beijos, onde brincam as crianças que espetam paus nas pequenas formigas, sabe o percurso dos homens que cortam a relva e conhece os velhos todos, que como ele percorrem os espaços com andar vagaroso. Depois começou a visitar os museus, mas a arte perdeu o significado para ele por falta de indentificação. Resolveu, então, visitar a cidade, conhecer melhor as ruas. Andou quilómetros por dia de caminhos diferentes. Viu crescer edifícios, casas, bairros inteiros. Viu pequenos centros comerciais tornarem-se grandes e grandes desaparecerem. Foi da Baixa à Cruz de Celas, de Stº António dos Olivais à Solum, do Norton de Matos aos Combatentes, de Stª Teresa à Universidade. Desceu a Almedina. Fez a Beira Rio. Atravessou para Stª Clara. Visitou toda a periferia num raio de quinze quilómetros. Hoje conhece a Geografia da cidade melhor do que os mapas a descrevem.Todavia a vida mantém-se vazia. Todas as noites volta à casa silenciosa. A mulher morreu quando tinha cinquenta, ele cinquenta e seis. Nunca colmatou a perda. Tem dois filhos. Fez questão de que fossem para a Universidade e hoje trabalham longe. Vêm a Coimbra pelo Natal para que o pai não se sinta sozinho. Trazem os filhos. Por essas alturas é um avô babado. Prepara o jantar, dose individual. Liga o rádio antigo e senta-se na mesa grande a comer. Parece-lhe infinita, com as cadeiras laterais vazias e a jarra com rosas secas no centro. Come vagarosamente enquanto rumina pensamentos e escuta, desinteressadamente, a moderna programação das rádios. Não é que goste destas novas músicas, mas é uma companhia de que não abdica.
Uma vez por semana, geralmente ao domingo à tarde, depois da missa vem a mulher da limpeza. Não bate à porta, tem a chave de casa. Diz "Bom Tarde!" quando entra, "Boa Noite!" quando sai. Enquanto lá está limpa o pó, troca os lençóis da grande cama de casal, varre o chão (o velho odeia o som do aspirador), arruma a cozinha, faz comida para a semana e confirma se o frigorífico e a arca estão abastecidos, lava e passa a ferro a roupa. Senta-se uma hora com o velho a ver na pequena televisão que os filhos lhe compraram o noticiário da noite. O velho gosta que ela venha. Dá luz à casa. Não sabe se por abrir as janelas ou se por ser a presença de outro ser humano, mas ilumina as divisões.
O velho sente-se sozinho. Principalmente à noite, com as luzes apagadas e a única luz proveniente dos candeeiros que iluminam a couraça. Gosta de ficar à janela e de ver, por vezes, passar um estudante solitário de capa e batina pelas sombras da calçada. Gosta de ouvir os seus discos de fado no gramofone dourado baço. Gosta de, no Verão, abrir a janela e sentir a brisa fresca do Mondego.
No dia seguinte acorda, o velho. Faz a sua higiene pessoal, veste o casaco de camurça gasta e sai. Sabe sempre para onde vai. Hoje não deu corda ao relógio.
O velho sente-se sozinho. Principalmente à noite, com as luzes apagadas e a única luz proveniente dos candeeiros que iluminam a couraça. Gosta de ficar à janela e de ver, por vezes, passar um estudante solitário de capa e batina pelas sombras da calçada. Gosta de ouvir os seus discos de fado no gramofone dourado baço. Gosta de, no Verão, abrir a janela e sentir a brisa fresca do Mondego.
No dia seguinte acorda, o velho. Faz a sua higiene pessoal, veste o casaco de camurça gasta e sai. Sabe sempre para onde vai. Hoje não deu corda ao relógio.
1 comentário:
Adorei.
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