4 de janeiro de 2007

À Noite


Abre a porta e perscruta o corredor levemente iluminado pela luz fria dos candeeiros lá fora.

Encontra o silêncio.

Num dos quartos o contraste do respirar forte e fraco de um casal e, noutro, a luz ténue de uma lâmpada acesa para alguém já há muito adormecido.

Apaga a luz.

Prossegue por sobre o soalho, com as suas pantufas imitando cães.

Adora as pantufas.

Uma madeira estala abaixo de si e pára muda. Procura qualquer ruído que evidencie alguém acordado. Mas a casa mantêm um sossego inabalável.

Continua.

Desce as escadas de mármore e é recebida pelas milhares de cores que iluminam a árvore que há tantos anos tenta decifrar. Ao fundo da sala o presépio – outro mistério.

Ou apenas estupidez(?).

Para quê tanto alarido à volta de algo imaginário. Recorda a ida dessa tarde ao centro comercial, o alvoroço da multidão, o entra e sai das lojas, o nervosismo que tinha por único objectivo a felicidade incerta. Para ela é simplesmente inaceitável. Não que não goste dos presentes!

Quem não gosta?

No entanto acha fútil a quadra. Mas para quê tentar explicar? Mas para quê, sequer, tentar compreender?
Põe o cd na aparelhagem, coloca a maior cavaca, que encontra no cesto de vime, dentro da lareira e senta-se no cadeirão mais próximo desta, enquanto se deixa tranquilizar pelo crepitar da madeira e pela voz rouca e quente de Louis Armstrong. É nestes momentos, à noite, que gosta de chamar lar ao lugar onde vive.

Pensa. Pensa. Talvez de mais.

E acaba por adormecer, embalada pelo calor, pelas lembranças felizes e pelo já longínquo som de um blues jazz eterno.

À noite.